sábado, 10 de setembro de 2011

Colombo segudo Todorov


Em “A conquista da América – A questão do outro”, o historiador Tzvetan Todorov investiga as intenções de Cristóvão Colombo ao atravessar o Atlântico. Para tanto, ele nos trás informações sobre os escritos do diário do almirante genovês a serviço do reino da Espanha.
As primeiras impressões nos apontam caminhos que podem enganar os pesquisadores menos atentos: pode parecer que o motivo principal de Colombo é o desejo de enriquecer, sendo o almirante apenas mais um homem ambicioso, como a maioria dos outros navegadores. Mas Colombo, segundo Todorov, não era apenas mais um entre tantos.
Todorov lembra que não são os marinheiros os únicos que esperam enriquecer. Os mandatários da expedição, os reis de Espanha, não teriam se envolvido se não houvesse a promessa de lucro. Assim, Colombo se importa com a riqueza porque ela significa o reconhecimento de seu papel como descobridor e viabiliza o financiamento da viagem.
A intenção de Colombo é encontrar o Grande Can, ou imperador da China, cujo retrato inesquecível tinha sido deixado por Marco Polo. Segundo ele, o Grande Can há muito tempo gostaria de ter sábios para instruí-lo na fé de Cristo. Todorov conclui que Colombo quer realizar o desejo do imperador e cuidar da expansão do Cristianismo!
Para Todorov, a realidade deste projeto de Colombo está comprovada, pois em seu diário o almirante escreve que espera encontrar ouro em quantidade suficiente para que os reis possam, em menos de três anos, preparar e empreender a conquista da Terra Santa.
Você havia lido algo assim? Os livros didáticos não trazem, com muita freqüência, estas discussões. Mas a história pode não ser apenas o que encontramos nos livros didáticos e revelar um pouco do ofício do historiador é o que pretendo neste nosso espaço de discussão.
Abraço!

domingo, 7 de agosto de 2011

Uma geografia do conhecimento.


"A tipografia no México em 1539", gravura - Museu da Cidade do México.

As sedes tradicionais do conhecimento no mundo moderno eram o mosteiro, a universidade e o hospital. Logo o laboratório, a galeria de arte, a livraria, a taberna, a biblioteca, o anfiteatro, o escritório e o café ganharam importância para a produção do conhecimento.
A biblioteca aumentou de importância e de tamanho depois da invenção da imprensa. Mas elas eram centros de estudo e sociabilidade culta e, nestes locais de encontro e de trocas constantes, a exigência de silêncio era impossível e inimaginável!
Os espaços públicos de cidades como Veneza, Sevilha, Roma, Paris, Amsterdã e Londres, facilitavam a interação entre homens de ação e homens de conhecimento, entre nobres e artesãos, entre o trabalho de campo e o gabinete. Além de ligar a Europa à China ou às Américas: cidades asiáticas como Goa, Macau e Nagasaki, cidades americanas como Lima e Cidade do México, e as cidades européias já citadas aqui, configuravam redes de longa distância nessa história do conhecimento nos primórdios do mundo moderno.
Muitas vezes, porém, o que se entendia era um fluxo de informação e conhecimento da Europa para as outras partes do mundo, num modelo de direção centro-periferia, que fazia questão de ignorar os fluxos de conhecimento da periferia para o centro.
Estamos prestes a fazer um estudo de meio que pode nos deslocar de uma posição de centro, se pensarmos São Paulo como grande produtora de conhecimento. Nossa ida a outras cidades nos dá possibilidade de captar o fluxo da periferia para o centro!
Temos a oportunidade de tentar entender a produção da memória nestas cidades por meio do que são suas marcas de um determinado passado. Nosso desafio é localizar a geografia do conhecimento que produziu o que está hoje diante dos nossos olhos. Vai ser preciso olhar para ver!
Este texto foi produzido a partir da leitura do livro “Uma história social do conhecimento”, do historiador Peter Burke*, disponível na biblioteca do Colégio Santa Maria.

Abraço e boa viagem!

*Peter Burke é professor de História da Cultura na Universidade de Cambridge e escreve mensalmente para a seção “Autores” do suplemento “Mais!”, do jornal Folha de São Paulo.

domingo, 31 de julho de 2011

Florença!


Duomo di Firenze - criação de Brunelleschi

A República de Florença conquista a hegemonia da cultura italiana, domina a região da Toscana, tem a sua disposição os portos de Pisa e Livorno. Sua burguesia obtém lucros importantes vindos do comércio com Veneza e investe em construções arquitetônicas grandiosas.
Em Florença, desenvolveu-se o platonismo – uma corrente do pensamento humanista que dá ênfase ao cultivo e a criação do belo através da arte como exercício de virtude e de profunda adoração a Deus. Isto aparece de forma marcante nas obras de Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Rafael e Brunelleschi.
Florença é tida como o berço do movimento renascentista e a noção de renascimento tal como a entendemos hoje, é estabelecida pelo historiador suíço Jacob Burckhardt (1818-1897) em seu livro “A cultura do Renascimento na Itália” (1867), que define o período como de grande florescimento do espírito humano, espécie de "descoberta do mundo e do homem".
No final do século XV, a França invadiu a Itália e as cidades resistiram com ajuda dos Espanhóis e Alemães, além dos recursos da Igreja. A queda de Florença seria terrível para o humanismo, para o respeito às liberdades e iniciativas individuais que eram marcas da civilização de Florença. O historiador Nicolau Sevcenko afirma que foi esse o medo que levou Maquiavel a escrever o seu “O Príncipe”, uma espécie de manual de política prática, destinado a instruir um estadista sobre como conquistar o poder e como mantê-lo indiferente às normas da ética cristã tradicional.

Procure saber mais sobre o Renascimento. Este é um exercício importante para entender como se forjou um novo olhar sobre o homem e o mundo ao seu redor. A novidade é o que nos movimenta o pensamento. Procure por ela. Sempre!


Abraço!

Veneza!


Imagem aérea de Veneza nos dias de hoje

O historiador Jacob Burckhardt , em seu livro "A cultura do Renascimento na Itália", descreve Veneza como uma cidade inexpugnável (que não se pode vencer, tomar, conquistar pela força das armas) mesmo em uma Itália dilacerada pelos bárbaros. Ao final do século XV, a cidade de pouco mais de 190 mil habitantes, tinha cúpulas antiqüíssimas, torres inclinadas, fachadas incrustadas de mármore, onde os adornos de ouro ocupavam todos os espaços disponíveis. Negócios de todo mundo eram feitos na grande praça central e nas ruas que convergiam para ela, em lojas, armazéns sem fim e estalagens. Em seus canais repousam embarcações de frotas carregadas de vinho e óleo, descarregadas por carregadores e levadas por mercadores. Havia instituições públicas como hospitais e órgãos administrativos funcionando regularmente como em nenhum outro lugar da Europa. Mesmo o sistema de pensões era administrado para atender perfeitamente as viúvas e os órfãos – isto foi conseguido com riqueza, segurança política e conhecimento do mundo, adquiridos pelos venezianos. Tudo isso fez com que Veneza sobrevivesse até mesmo aos mais duros golpes como, por exemplo, as constantes guerras contra os turcos e a descoberta do caminho marítimo para as Índias Orientais pelos portugueses e espanhóis, o que desviou parte do comércio que por ali passava.
Os Venezianos entendiam ter entre seus objetivos gozar o poder e a vida, ampliar o legado dos antepassados e abrir constantemente novos mercados. Este estilo de vida apenas confirma a história dos Polo, desde o estabelecimento do tio de Marco Polo em Constantinopla até as viagens de Marco Polo ao reino de Kublai Khan, como vimos no nosso curso de história, no bimestre passado. E aqui fica meu desejo para que você se lembre e leve com você esta e outras histórias...
Pense Veneza como uma cidade que pode ser comparada às outras tantas que você, de alguma forma, conhece ou vai conhecer. As cidades são intrigantes e únicas. Escreva sobre elas sempre que puder e estará estudando sua história.
Abraço!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Na direção do passado que foi Moderno!


"O Nascimento de Vênus" - Sandro Botticelli, 1483.

O século XVI tem características muito especiais, a maior parte da Europa ainda vive sob as condições da Idade Média, mas os ventos da mudança sopram na direção do horizonte que se apresenta no Oceano Atlântico!
A difusão da invenção da imprensa de tipos móveis faz os livros circularem e, com eles, o conhecimento, a cultura e a possibilidade de crítica diante das diversas realidades existentes na Europa.
E as novidades são tantas que é difícil apontá-las neste pequeno texto. Contudo, é possível que nos impressionemos diante do movimento dos artistas italianos, da opulência de Veneza e Florença, da força de movimentos como o Humanismo, a Reforma e a Contrarreforma que vão mexer com a Igreja Católica. Tudo isso tentou fazer a razão ocupar o lugar onde esteve assentado o poder do cristianismo, em boa parte da Idade Média.
Tudo isso acontece ao mesmo tempo em que a Europa descobre e coloniza um continente: a América.
Ao nos reencontrarmos na escola, vamos aproveitar o impulso que o comércio deu à Europa para se mover e juntos estaremos caminhando na direção da Idade Moderna. Não perca este “trem” da história.

Abraço!

E para quem quiser saber mais sobre esta pintura de Botticelli, indico o blog abaixo:

http://valiteratura.blogspot.com/2011/03/botticelli-e-escola-florentina-do.html

Clica e vai!

domingo, 29 de maio de 2011

Sobre a formação de Portugal e Espanha (parte II)


Fonte: McEvedy, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

Observando o mapa acima podemos conferir o avanço do Reino de Leão e Castela em direção ao sul da Península Ibérica, o que também acontece com o Reino de Aragão.


Note também que o território de Portugal se amplia bastante e chega ao limite meridional da península.


A Espanha vai concluir seu processo de unificação dos Reinos ao expulsar, em 1492, os árabes muçulmanos do território denominado no mapa de Granada. Este é também o ano em que Colombo cruza o Atlântico, em busca de um novo caminho para as Índias e descobre um novo continente...


A ideia mais forte até aqui, é a de que as lutas dos Reinos de Portugal, de Leão e Castela, e de Navarra e Aragão, pela Reconquista da Península Ibérica, foram determinantes para a formação e unificação dos Estados Modernos de Portugal e Espanha.


Gosto de pensar que é pela negação do elemento estranho (no caso, o muçulmano), que se formam os sentimentos de nacionalidade dos portugueses e espanhóis. Como já discutimos nas aulas, o conceito de nação tem a ver com um sentimento de pertencimento do indivíduo no grupo em que está inserido.
Me parece que esta tese se fortalece quando olhamos para os mapas postados aqui no blog. O que vocês acham?


Abraço,


Helio.

Sobre a formação de Portugal e Espanha (parte I)


Fonte: McEvedy, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

Como vimos em nossas aulas sobre o Islã, grande parte da Península Ibérica estava, desde o século VIII, dominada pelos muçulmanos. Na península, os cristãos ocupavam as terras do norte onde se formaram os reinos de Leão, Castela, Navarra e Aragão.
Com as Cruzadas, a partir do século XI, a luta contra os mouros (nome pelo qual eram chamados os muçulmanos instalados na Península Ibéria) começou a ter resultado.
Esta luta, chamada de Reconquista, é o motor que movimenta a formação dos territórios de Portugal e Espanha. Pode-se dizer que é na luta contra os árabes muçulmanos que se fortalece um sentimento de identidade, por um lado, de portugueses e, por outro, de espanhóis.
O rei de Leão e Castela, em reconhecimento a um nobre que lutava contra os mouros, doa a ele o Condado Portucalense.Este nobre, Afonso Henriques, senhor do condado, que deveria obedecer as leis de suserania e vassalagem, revoltou-se contra seu suserano e declarou-se rei! No entanto, continuou a luta contra os mouros. Ajudado pelos soldados da Segunda Cruzada, que passava pelo litoral português, conseguiu libertar Lisboa dos muçulmanos e a cidade passou a ser a capital do Reino de Portugal.
O rei português controlou os nobres e aproximou-se dos burgueses, protegendo o comércio. Em meados do século XIII, Portugal estava completamente formado: a conquista do território terminara e o país era governado por um rei fortalecido. Nenhum monarca europeu, naquele momento, vivia uma situação igual.
Observe no mapa o processo de Reconquista: na primeira imagem os cristãos estão restritos ao norte da península; na segunda imagem, mais da metade do território foi conquistado. Já é possível localizar Portugal e as importantes cidades do Porto e de Lisboa.
Na próxima postagem, explico melhor a formação do Reino da Espanha.
Abraço!